"Você​ ​está​ ​bem?​ ​Estou​ ​viva!" [1]

Por Cláudio Bueno e João Simões

Fragmento do texto produzido por ocasião do Seminário Internacional de Arte Contemporânea 2017 - “Urgências na arte”, do Paço das Artes, em São Paulo. Em breve, publicação completa será lançada pelo Paço das Artes.

Ao perguntarem: “Você está bem?”, Aretha Sadick responde, “estou viva!”. Aretha é preta, performer carioca nascida no bairro de Duque de Caxias, vive em São Paulo. Através da singularidade de seu corpo, habitado por gêneros, performações e desejos, em constante dúvida e transformação: exercitando uma outra masculinidade negra; entendendo-se bicha travesti não-binária; performando entre a ficção de uma personagem drag e a experiência da realidade mais crua (que mata); a artista nos revela a urgência de manter-se viva – em um mundo que parece já ter declarado o seu fim, mas que insiste em continuar em guerra: contra todos os corpos, modos de vida, culturas e populações vulneráveis ao necroCistema branco [2] vigente.

Aretha e o brilho de suas performances – entre a música pop, o teatro, a passarela, o videoclipe e a contação de histórias sobre o nascimento do mundo para crianças (sob a perspectiva dos orixás) –, abre brechas para refletirmos sobre a importância das manifestações e da ocupação dos espaços culturais como parte significativa da ecologia do que significa “estar viva”. Nascida em 1989, a artista é fruto de uma geração que foi adolescente nos anos 2000, quando o país prometia novas perspectivas e possibilidades de vidas outras para as populações periféricas – a tal da ascensão à classe média – especialmente quando falamos da vitória do operariado totemizado em Lula, nas eleições diretas de 2002. Apesar dos inúmeros golpes e terrorismos produzidos pelo Estado (majoritariamente dominado por homens, brancos, heterosexuais, cisgêneros e fundamentalistas religiosos), vemos surgir, além de Aretha, um enorme grupo de pessoas pretas, indígenas, caboclas, quilombolas, gordas, macumbeiras, nordestinas, trans, lésbicas, bisexuais, assexuadas, bichas, com deficiência física, mulheres heterosexuais, e toda a multiplicidade de corpos e pessoas ditas periféricas e vulneráveis, que vivendo agora, em 2017, com vinte e poucos anos, não deitam! Não estão dispostas a se submeter a ninguém.

Com a clareza política de que algo lhes foi negado, como o acesso básico às escolas, à saúde, à alimentação, à mobilidade, e ao conhecimento de suas histórias, criam agora seus próprios mecanismos de geração de força, inventando novas maneiras de estar junto, de aprender, de imaginar, de trocar, de roçarem-se uns aos outros, com o desejo e o afeto que não lhes pareciam inicialmente possíveis, quando nem mesmo acreditavam na beleza de seus corpos.

Sob essa perspectiva, as populações LGBTQIA+ e negras atuantes em São Paulo (local de onde falam os autores do texto), tem promovido espaços autônomos de segurança, acolhimento, coragem, reflexão e produção de conhecimento e de cultura, como são, por exemplo, num brevíssimo mapeamento: o quilombo urbano Aparelha Luzia, os coletivos Amem, A Revolta da Lâmpada e MEXA, a plataforma AfroTranscendence, o Cursinho Transformação e o Transarau, as casas Florescer, Brenda Lee e Casa 1, as festas Batekoo e Tenda, a família Stronger, a Cia Sansacroma de dança, e a plataforma Explode!, criada por Cláudio Bueno e João Simões, principal ponto de apoio deste texto, incluindo aqui muitos de seus participantes, conforme detalhado mais adiante.

São quilombos urbanos, coletivos, casas, festas, grupos de ativismo e cultura, liderados e ocupados majoritariamente por pessoas trans, negras e periféricas, bem como nordestinas, migrantes, em situação de rua, e outras vulnerabilidades sociais. Realizam apresentações públicas de práticas artísticas, produzem publicações com conteúdos gerados por essas populações, acolhem pessoas em situação de risco e vulnerabilidade, preparam para ingresso na universidade e no mercado de trabalho, etc. Atuam em diversas regiões da cidade, entre Centro, Cidade Tiradentes, Capão Redondo, e outras.
Há muitos outros projetos importantes, não necessariamente circunscritos no âmbito da cultura e da arte, muitos deles ligados ao poder público, distribuídos também nos demais estados do país. São espaços que se fortalecem e fazem emergir o que não se pode mais esconder, ou guardar, em relação a subjetividades periféricas, vulneráveis, minoritárias, tratadas como subalternas, negras, transviadas-sapatão e outras. São pessoas prontas para desfrutarem dos mesmos recursos e infraestruturas oferecidas pela cidade, até então, limitados a um saber, um corpo, uma classe social e uma cultura hegemônica específica.

Nesses espaços autônomos, ao contrário de disputarem a mesma narrativa hegemônica colonial instaurada, esses coletivos criam histórias outras, contra-histórias [3], que não tenta, simplesmente, mimetizar a genealogia e continuidade da cultura do patriarcado branco médio burguês – apesar de muitas vezes, ironicamente, ter que lidar com ela, na medida em que habitamos o mesmo campo de forças vigentes. São grupos que criam suas próprias narrativas, re-conhecem suas histórias e
redistribuem também, nesse processo, a violência [4] – até então concentrada apenas em seus corpos. E para operar essa redistribuição, não bastaria apenas que aceitassem e representassem gentilmente a cultura periférica como parte do sistema, como um anfitrião que lhe recebe em sua casa e apresenta parte dos seus convidados – faz-se necessário, portanto, liberar espaços, reduzir a participação de certos corpos, dando lugar a outros.

De maneira muito prática e objetiva, substituir homens brancos, ricos e cisgêneros, ainda que eventualmente sejam gays (o que não representa nenhuma salvação a priori), dos principais postos de direção e curadoria ocupados hoje nas poucas instituições que nos restam, como no exemplo de São Paulo...

[em breve, texto completo – aguardando publicação oficial do Paço das Artes]

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Notas

1) Estou​ ​viva!​: Na noite de escrita deste texto, dia 05/10/2017, nove travestis foram detidas na Praça da República, em São Paulo, dentro do projeto higienista do atual prefeito João Dória Jr., em parceria com o governador Geraldo Alckmin. As travestis foram acusadas de estarem sem documento de identificação e de prostituição.

2) NecroCistema​: trata-se de um termo que mescla a noção de necropolítica, em referência ao filósofo Achille Mbembe e a ideia de Cistema, escrito com C, termo que aparece pela primeira vez através da pesquisadora e transativista do grupo CuS da UFBA, Viviane Vergueiro, sobre esse dispositivo de poder que impõe como normatividade as pessoas cisgêneras – termo utilizado para se referir ao indivíduo que se identifica com o seu “gênero de nascença”.

3) Contra-história:​ ​em contraposição à história tradicional que surge e é construída a partir dos lugares de poder, Foucault propõe a ideia da contra-história, que parte da perspectiva dos não-vitoriosos a partir da narrativa da luta entre raças. "Não temos, atrás de nós, continuidade; não temos, atrás de nós, a grande e gloriosa genealogia em que a lei e o poder se mostram em sua força e em seu brilho. Saímos da sombra, não tínhamos direitos e não tínhamos glória, e é precisamente por isso que tomamos a palavra e começamos a contar nossa história." (2000, p. 82)

4) Redistribuição​ ​da​ ​Violência:​ é um gesto de confronto e também de autocuidado, entendendo que a origem dessa violência faz parte de um projeto de mundo normativo, racista, sexista, classista, cissupremacista e heteronormativo; é proteger-se dessa guerra contra o que não se enquadra nesses preceitos e que estrutura um conceito excludente de paz. (MOMBAÇA, 2016, p. 10)

 
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Aretha Sadick. Foto: Diego Ciarlariello

 
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Programação do Seminário Internacional "Urgências na Arte" 2017, no Paço das Artes. Em breve, livro será lançado pela instituição.

 
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Explode! Residency. Sala de encontros na casa na Vila Nova York. Foto: Danila Bustamante

 
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Evento Ataque! Queer na Praça das Artes, São Paulo. Na foto: Pony Zion, por Leandro Moraes